Republicanos rejeitam convocação de testemunhas em julgamento político contra Trump

Fabrice COFFRINI

O julgamento político contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em uma nova etapa nesta quarta-feira (22) depois que o Senado debateu até altas horas da noite as regras do processo e os republicanos bloquearam todos as tentativas dos democratas de convocar autoridades como testemunhas.

Antes de se concentrarem nas acusações atribuídas a Trump - abuso de poder e obstrução ao Congresso - os republicanos que dominam o Senado e a oposição democrata se enfrentaram durante 13 horas, até quase 02H00 desta madrugada (04H00 no horário de Brasília). 

Todas as tentativas dos democratas de citar testemunhas chaves e obter documentos foram bloqueadas pela maioria republicana, um indício de como o processo vai transcorrer e que provavelmente terminará com a absolvição do presidente, que busca a reeleição em novembro.

O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnel, apresentou na segunda à noite um projeto de resolução sobre o procedimento com o qual busca estabelecer restrições às provas da investigação e à participação de testemunhas, além de buscar acelerar o processo.

Este cronograma estabelece três sessões de oito horas para a acusação, tempo equivalente para a defesa e depois 16 horas para os interrogatórios.

Um passo a passo adaptado após o inicialmente proposto de celebrar sessões vespertinas de 12 horas, criticado duramente pelos democratas. 

Esta foi a única mudança admitida por McConnell. As onze emendas apresentadas pelo chefe da bancada democrata, Chuck Schumer, para convocar altos funcionários próximos a Trump para depor e obter documentos foram rejeitadas sistematicamente, com os 53 senadores republicanos votando em bloco. 

Quatro meses depois do surgimento do escândalo ucraniano e a dez meses das eleições presidenciais, os 100 senadores deram início ao julgamento de Trump, que se tornou o terceiro presidente na história do país a ser julgado num processo de impeachment, depois de Andrew Johnson, em 1868, e de Bill Clinton, em 1999.

Segundo a acusação, Trump tentou pressionar a Ucrânia a interferir a seu favor nas eleições de 2020, sugerindo ao presidente do país europeu que investigasse os negócios do filho de Joe Biden, um dos pré-candidatos democratas com mais chances de enfrentá-lo no pleito presidencial de novembro.

Os democratas que lideraram a investigação acusaram ainda o presidente de obstruir a investigação no Congresso ao recusar que seus principais assessores testemunhassem.

De acordo com os democratas que lideraram a investigação, Trump pressionou a Ucrânia retendo cerca de 400 milhões de dólares em ajuda militar para o país, que está em conflito com rebeldes pró-Rússia no leste de seu território.

Na terça-feira, o processo transcorreu de acordo com um protocolo que determina que nem aplausos nem telefones celulares são permitidos na sala e que apenas água ou leite pode ser levado para dentro da câmara.

Uma das figuras centrais foi o democrata Adam Schiff, responsável pela acusação contra Trump, que defendeu a convocação de testemunhas e a apresentação de documentos. 

"A verdade virá à tona", disse Schiff aos senadores. "A questão é quando", continuou o congressista que liderou a investigação contra Trump na Câmara de Representantes.  

O representante de Trump, Pat Cipollone, disse que um julgamento partidário equivale a "roubar uma eleição" e considerou que bloquear o testemunho de funcionários do alto escalão da Casa Branca é um "ato de patriotismo".

"Eles querem tirar o presidente Trump das urnas", declarou, em referência às próximas eleições.

A senadora Elizabeth Warren, uma das pré-candidatas democratas, expressou-se severamente depois que os republicanos enterraram uma emenda para citar o chefe de gabinete da Casa Branca, Mick Mulvaney.

"Sejamos claros: não estaríamos aqui apresentando emendas às 22h00 se o senador McConnelly e os republicanos não estivessem tentando manipular as regras do julgamento político", afirmou Warren.

Por sua parte, Trump, que está em Davos para participar do Fórum Econômico Mundial, voltou a descrever o processo como uma "caça às bruxas que vem ocorrendo há anos".  

Fonte: AFP